
LUCIA MOURA
Mateus
Pois é, velório continua sendo minha diversão preferida. Não aquela coisa doentia. Essas taras que existem por aí. Não. Apenas resolvi tornar agradável a coisa mais chata do mundo.
Mateus, meu grande amigo, faleceu no domingo de carnaval. Péssimo dia para quem é carnavalesco. Mas isto não vem ao caso - ninguém escolhe data para morrer - é destino de cada um.
Se pelo menos ele tivesse morrido de manhã, tudo bem, à tarde já teria sido enterrado e a galera tava liberada para continuar brincando. Mas não. Ele morreu exatamente na hora da Ave Maria: boca da noite, seis horas. Pegou o pessoal desprevenido. Quase todo mundo de porre. Um vexame.
- Ligaram para Fernanda? Ela foi para o acampamento.
- Ainda não.
- E Antonieta? Tadinha. Ainda agora ela estava lá na Ema. Bebinha, bebinha... E Norminha?
- Déia ficou de avisar. Ela pegou a agenda de Mateus. Só tem nome de mulher. Vai ser novela pra quem não conhece bem o falecido descobrir qual delas é a viúva principal.
- As viúvas você quer dizer.
Lá pelas dez da noite, o velório começou a ficar animado. Chegavam em bando ou sozinhos.. A mulherada muito bem representada. O primeiro time – o das viúvas – uma beleza. Todas as tribos, raças e credos. Uma festa.
Lurdinha, a viúva anterior, estava sentada do lado direito do caixão. Dalva, a última no esquerdo. Mas, tinham outras: Maristela, Vandinha, Tônha, Ledinha, Zenaide. As letras do alfabeto, eu acho. Coitadas choravam feito umas desenganadas.
Valdo chegou vestido de conde. Estava desfilando no Flor da Lira. Elisa saiu do Maracatu direto para o velório. Tão bonita com aquela roupa de rainha. Lágrimas escorriam pela face, morrendo no canto dos lábios. Arrepiei. Sempre achei aquela mulher um tesão. O falecido era mesmo um cara de sorte. Liso, tudo bem, mas sortudo, isso sim.
- Quer um café?
- Preferia uma lapada.
Alguém teve a brilhante idéia. Pegou numa barraca próxima do cemitério uma garrafa de cana. Era no gargalo mesmo. Sem frescura. A primeira terminou logo. Eugênio fez uma cota e trouxe logo duas e de quebra o tira-gosto: limão e caju. Cortadinhos. A mulher da barraca era jeitosa ou conhecia o falecido. Tava bem feito demais.
Devia ser meia noite ou pouco mais quando a freira entrou. Pensei que era fantasia. O traje sem graça me chamou atenção. Olhei duas vezes. Era freira de verdade. Que eu soubesse, Mateus não era chegado à igreja e nem tinha parente que fosse. Quem seria?
Olhei pro relógio: uma hora. Ninguém prestava atenção a nada: estavam derrubados. A freira ficou por ali rezando e quietinha encostou-se num canto.
Às duas da manhã o velório foi esvaziando. Os bêbados demais dormiam. As mulheres pareciam mais conformadas. Maristela me cutucou:
- Quem é aquela ali?
- A de hábito?
- Sim.
- Sei não.
- Estranho. E aquela outra? A que está atrás do caixão.
- Também não sei.
- Espera aí, não é Paixão?
- Não estou bem certo.
- É a própria, sim senhor. Reconheci pelo jeito pegar no cabelo.
- Tem razão é ela mesma, e agora loura.
Maristela foi embora. Antes, deu um jeito de falar com a desconhecida. Lá pela tantas, Abigail, viúva das mais antigas, resolveu diminuir a luz do salão. Era para a turma descansar. Precisavam. O dia seria longo o enterro estava marcado para as três da tarde. Àquela altura tinha pouca gente, a viúva da esquerda e a da direita saíram de seus postos e se recostavam uma na outra. Ledinha sentou-se perto da entrada do velório, duas outras pessoas que não dava para ver direito, na outra entrada. A freira continuava no mesmo lugar. Rezando. Paixão fumava lá fora. Não falara com ninguém. Sempre fora esquisita.
O silêncio agora era total. Na penumbra, vi a freira chegando para bem perto do caixão. Foi se recostado mais e mais. Curioso. Espichei o pescoço à procura de um ângulo melhor. Vi a mão esquerda acariciando os lábios do falecido. A outra estava por debaixo das flores. Não era impressão: ela apalpava o corpo inerte. Bolinando o defunto. Os movimentos eram ritmados. Será que eu estou bêbado? Aprumei a vista. Não, era a mais pura verdade. Ia e vinha que nem onda.
O mar foi ficando bravio. De repente Paixão entrou de mansinho no velório e parou junto ao caixão bem próximo da freira. Chegou-se mais. Pega de surpresa, ela soltou um leve gemido de gozo e susto. Ainda trêmula deu uma geral. Nem percebeu que eu prestava atenção à cena. Foi se encostando mais e mais na mulher que estava atrás dela. Os seios rígidos da outra pareciam querer-lhe furar o hábito. Notei a feira arqueando o corpo. As duas entraram em compasso: ritmo frenético. Mãos e corpos. Esfreguei os olhos - eu não estava dormindo e muito menos bêbado.
Amêndoas glaçadas de marzipã.
Olha mais uma vez a mesa pronta para a ceia. Quatro lugares: dois em cada lado. A toalha branca de damasco realça a louça inglesa. Taças de cristal vermelho fazem par com o arranjo de rosas que repousa no cento da mesa em uma floreira de murano. Baixo, do jeito que eu gosto. Não deve interferir na conversa. Preciso fitar cada um. Ver seus rostos, perceber os trejeitos. Mania antiga esta minha. Lembro de Carlos, o olhar frio, mas o leve tremor no canto da boca denuncia a insegurança.
Toca os talheres de prata. Foram de mamãe. Alisa o guardanapo. Alvo. Perfumado. São desagradáveis as manchas de batom. Alicinha gosta dos carmins.
Olha em volta. Está quase na hora. Devem chegar alvoroçados. Ah! As desculpas! Tão engraçado ver Carlos mentindo para encobrir os deslizes de Alicinha. Armênio trará orquídeas ou uma caixa de amêndoas glaçadas de marzipã? Amo os dois. Foi uma pena não chamar Heleninha e Daurio. Quero um ambiente mais íntimo. Tenho quase certeza que Alicinha vai trazer um perfume exótico bem ao gosto dela. Carlos, aquele livro que citei outro dia. Ou foi na semana passada?
Dirige-se ao interior do cômodo. Retorna minutos depois trazendo uma sineta que pousa sobre a mesa. Da gaveta, retira um incenso. Acende. Segue com os olhos a fumaça perfumada que vagueia pela saleta. Chega próximo à janela. Senta-se.
A mesma cena. Sempre espreitando de sua janela as do prédio vizinho. Agora nem disfarça. Simplesmente olha alheia a tudo. Pega o livro que repousa na mesinha ao lado da cadeira. Folheia-o. Abre mais a janela. O vento toca seu rosto numa massagem lenta. Passa os dedos entre os fios levemente encaracolados do cabelo ainda úmido. Amassa-os para dar jeito.
Levanta-se e vai até ao aparador. Ajeita o arranjo de flores tropicais. Como são bonitas e intrigantes. Lembram rostos macilentos de cadáveres. Antonieta nunca deixou faltar em seu jardim. Marina também. Pega uma das caixas da coleção. Esta eu trouxe daquela viagem ao México. Não, Portugal. Tenho certeza.
Apura o ouvido, andando rápido segue em direção à porta de entrada. Volta à janela. Pensei que era a campainha. Este silêncio me dói os nervos – me confunde. Aperta uma tecla do aparelho de som. A velha dama está cada vez mais concentrada. Olha o relógio de pulso. Inquieta verifica o espaço povoado de lembranças. Quase meia noite. Vou acender mais um incenso. Por que demoram tanto? Leva um lencinho de cambraia até o rosto. Repete a cena e desta vez mais próximo ao olho. Consulta o relógio da parede. Pega, no balde de prata, a garrafa de champanhe. Retira a rolha cuidadosamente. O líquido gelado e espumante escorre por entre seus dedos. Sou muito desajeitada. Nunca aprendi a abrir champanhe, Joca sempre estava atento. Enche uma taça. Seus olhos buscam as janelas do prédio vizinho. Tudo igual, apenas numa delas uma discreta penumbra.
A campainha toca. Toca o carrilhão. Tudo ao mesmo tempo. Meia noite. Vira-se. O olhar busca a janela do outro lado. Está escuro, a cortina esvoaça. Abre a porta. Ergue a taça.
- Feliz Natal!____________________________________________________
Onde estão os pardais?
- Meu filho? Ele não é disso. Menino bom. Calado, tem até trabalho fixo. Onde?
Conheci pardal menino. Escuro. Corpo franzino, penas murchas. Molhadas nas águas podres dos canais. Calado. Não fala. Olha. Olhar vazio. Barriga encolhida. Tripas secas.
- Não sei não, moço. Sei de carteira não. Oh! Virgem Santa! Quanta dor. Se ele tinha inimigos? Não moço. Que pergunta mais sem propósito.
Conheci canário menino de corpo sarado, penas fofas. Mergulho nas piscinas de águas azuis cheirando a cloro
.- Meu filho? Ta brincando! Ele não é disso. Menino muito bom. Bate para se defender é claro. Está pensando que ele é bobo? Estuda. Tem aula de natação, judô. Onde?
Mistura. Penas brancas, fofas às murchas e encardidas. Trinados límpidos e chiares estridentes. Risos, gritos. Livres. Sem pudores. Vida. Crianças.
- Num tinha vício. Avião! Meu Jesus! Justiça? O que é isso dona? Zuza, você já viu pobre ter essas coisas? Tem não moça.
Os meninos pássaros crescem. Levantam vôo. Morte aos pardais. Corpos caídos pelo chão. Pequenas aves, quase adultas, exterminadas pelo sistema.
- Desgraçado, não faz assim, ele tá morto. Bandido? Já disse, não empurra! Pari bandido não, viu? Você pode dizer tudo que quiser mesmo assim é meu filho. Santa Maria rogai por nós!
Rios de sangue correm pelas vielas. Crimes, torturas - guerra urbana. Julgamento sem tribunal. Sentença de morte. Papelotes. Menores. Pobres. Morrem ainda na infância.
- Mas moço, mesmo assim eles morrem nos becos. Em surdina. Perdoa minha Virgem Imaculada tanta ruindade. Bichinho, todo melado. Jogado no beco. Tão largado
Canários em revoada, cantam, fazem algazarra, quebram. São canários. Jogo, fumo. Cocaína. Estupro.
- Não meu caro, era apenas brincadeira. Não está vendo. Ele arrebentou a criatura pensando que fosse uma vadia qualquer. Coitado. Nada de fotos. Já disse. Quanto custa? Nada de fotos. O que você está pensando. Eu posso. Vá. Quanto? Diga.
Asinha murcha, entreaberta largada no chão de terra. Esgoto, lama e sangue. Massapé dos Diabos. Trinta e oito.
Cópias caricatas dos canários. Louros, brancos. Ouço o soluçar das mães. Desencanto. Tristeza. Onde estão as risadas? Ouço o choro. Desespero. Rios de sangue correm pelas vielas. Crimes e torturas - guerra urbana. Julgamento sem tribunal. Sentença de morte. Papelotes.
- Sei moço que se fosse no canal, já tava podre. Diz isso não. Olha as formigas. Livrai-nos Senhor! As danadas tão entrando pela boca. É maldade demais.
Os meninos pássaros crescem. Levantam vôo. Morte aos pardais. Corpos caídos pelo chão. Pequenas aves, quase adultas, exterminadas pelo sistema. Rios de sangue correm pelas vielas. Crimes, torturas - guerra urbana. Julgamento sem tribunal. Sentença de morte. Papelotes. Menores. Pobres.
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CÁSSIO CAVALCANTI
Chamou Eu Venho...
Não adiante chorar, me chamou eu venho. Agora é tarde para se arrepender.Tinha que ter pensado antes nas conseqüências de seu ato. Calma, veneno no refresco faz logo efeito. Ainda tenho muitos para atender hoje.
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Os Cabelos de Sofia
Caio, estava dentro de seu carro, aguardava o sinal abrir. Olhava sempre os carros em sua volta. Em um, uma mulher passava batom, em outro um jovem escutava uma música que parecia animada, em um carro mais na frente um homem acendia um cigarro. Caio, era o que se podia chamar de realizado, tinha muitos amigos, muitas mulheres, um bom carro. Mas a impaciência e o vazio, sentimentos esses que se tornaram seus velhos conhecidos, e não o deixavam nunca. Mas nem sempre foi assim, ele não teve no início uma vida das melhores. Filho de pais separados, deveria ter dois ou três anos quando aconteceu a separação de seus pais, e desde então não passou a ter mais contato com seu pai. Vindo de colégios públicos, mas sempre sendo o primeiro em suas turmas, foi fácil conseguir o seu “lugar ao sol”. Passando por uma universidade com perseverança, depois um concurso e mais um primeiro lugar, e um excelente emprego.
Sinal verde, Caio dá a partida, mas se assusta com um barulho e para em seguida. Não acredita, na frente de seu carro uma mulher caída. Perplexo, sai do carro imediatamente. Ao se aproximar da mulher ainda caída, ele admira os cabelos de sua vítima. Uns cabelos de um louro que somado aos reflexos de um sol escaldante, resultavam nos mais belos cabelos de uma mulher que ele já havia visto em toda a sua vida. Aqueles cabelos molduravam o rosto belo e atraente da jovem Sofia. Que por sorte, não sofreu nada mais grave, somente algumas escoriações. Caio sentiu-se invadido pelo frio que inunda o nosso interior, que mais parece água gelada a molhar o nosso íntimo. Aquele que só sentimos quando a atração pela outra pessoa é das mais fortes e arrebatadoras. Ele pergunta entre a adoração e a preocupação:
- Você está bem?
Sofia responde meio atordoada:
- Acho que sim.
Ele então sorrio, o mais tranqüilo dos sorrisos.
Cinco anos se passaram, Caio encontra-se no mesmo sinal fechado. Ele agora não olha mais os carros em sua volta. Dentro de seu carro ele contempla Sofia, que sentada a seu lado, é sua mulher. No banco detrás duas crianças brincam, seus filhos. Caio não procura mais, agora ele tem. O sinal abriu, Caio se vai não mais acompanhado pela impaciência e o vazio, mas sim pelos cabelos de Sofia.________________________________
Quem não tem nada a perder
Dizem que para se tornar assassino basta matar pela primeira vez. É como andar de avião ou entrar em um cemitério a meia noite. Depois de passar a fronteira, perde-se o medo. Fica tão fácil quanto beber água. Já vi filhinho de bacana se cagar com um revolver na cabeça. Muito machão chorar como uma menininha.
A sensação é muito boa, decidir naquele momento quem não vai mais viver, com um simples mover de gatilho. É o poder. Como se tornar assim frio e impiedoso? É fácil. Imagine uma criança de cinco ou seis anos, não sei mais ao certo. Sempre que ela acorda com medo, ver a mãe com um homem diferente a cada noite. E quando é notada, ser jogada para fora de um barraco as três da manhã. E ficar parada ali, com frio até amanhecer. Quando a porta se abre escutar um simples:
- Entre.
Acredite, quebra-se alguma coisa dentro de nós, que nunca mais terá conserto. Quando se tem certeza quem não existe o amanhã, quem vai morrer a qualquer hora, como se preocupar com a vida de quem desde o nascimento a vida lhe sorri.
Só um troço nunca se esquece, o olhar de uma criança quando sentiu, respingar o sangue do pai antes de tombar, no rosto. São olhos de quem não tem mais nada a perder, de quem é esquecido no frio.
Tudo na vida cansa. A grande sacada é saber a hora de parar. Quando se é sozinha na vida essa noção é mais que uma questão de sobrevivência. Fala-se muito em fundo do poço, mas cair de cara em cima do próprio vomito e não ter coragem de se levantar, poucos passam por isso, dos que passam, no outro dia, quando conseguem ficar de pé, não são mais donos de uma sanidade mental. Insanos marginais que vivem a margem de uma sociedade caótica.
Dizem também que quem envereda por esse caminho não tem mais volta. Pois eu consegui e ainda continuo com o poder. Agora decido quem vai para o céu ou o inferno. No meu templo os fieis seguidores confiam cegamente em mim, em troca da salvação:
- Entre meu filho. Nossa igreja é humilde mais é a porta para o reino eterno repleto de glória e paz.
- ...
- Me dê essa arma. Aqui você não vai mais precisar dessa muleta. Esse seu olhar! Quem é você?
- Eu sou a luz de sua salvação. O anjo dos justos, com a mão pesada da justiça que vinga os mortos.
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Eram saborosas, ele não passava sem elas...
Carlos chegou em casa cansado, e tinha como companheiras naquele apartamento escuro apenas as bolachas Crean Craker. Não suportava mais pensar que Heloisa se negava a lhe sorrir. Queria acabar com tanto sofrimento.
A sala era maior do que parecia, a penumbra que se encontrava a tornava menor e sufocante. Nas paredes não havia quadros. A não ser o desenho mau feito de uma forca que colado na parede branca os rabisco do que seria uma corda se sobressaia. Não tinha uma televisão e ali não se escutava música alguma.
Sentou-se a mesa junto as suas companheiras, desfez o nó da gravata e a jogou para um canto qualquer. Decidira-se pela a ausência de cabelos já fazia algum tempo, com isso se tornava um pouco estranho. Estava magro, somando isso à altura, fazia as colegas de trabalho tremer ao olhar para ele. Quem eram elas perto daquela que teve nas mãos. Falassem o que falassem, para ele nada significava.
Aquele imbecil pensa que é o maioral, um chefezinho de departamento de criação. Dizer que a empresa estava perdendo a boa imagem por causa de um funcionário que mais parece um morto vivo. De certo não sabe o que é perder algo que lhe é muito caro. Na certa nunca foi abandonado. Criado com uma vovó lhe mimando, em boa coisa não poderia se tornar.
No rosto comprido as olheiras se destacavam. Nada mais lhe importava a não ser a ausência daquele riso.
Você sabe o que é nunca ter nada, já está acostumado naquela realidade, de repente ser o mais privilegiado dos homens, ter os que muitos nunca terão em toda a vida, e depois como em um passe de mágica voltar a ser o titio, o cara calado que nunca vai para um bar por que nunca é convidado por ninguém. Não.
As vezes penso que o maior dos ouvintes é o silencio. Nos escuta com paciência e não tem pressa, falamos, falamos, geralmente tão baixo, só em pensamentos e mesmo assim fica calmo... Não diz nada, não nos julga nem tão pouco nos dá sermões. Acredite o silencio e o mais sábio e o mais verdadeiro dos amigos.
Decidiu-se por apanhar a gravata do chão que a tempo observava. Batia o pé direito ainda com a cadência de um pêndulo de relógio antigo. O atrito da sola do sapato com a cerâmica do piso fazia um barulho sincopado e irritante. Foi parando, parando, parando... O pacote com as prediletas foi à única testemunha do acontecido.________________________________________________________________________________
RAISA FEITOSA
sucata viva, eloquente sacripanta
suando lágrimas de exaustão
conformidade elucidada
constrata, maltrata, corrobora o egocosmo ou egotismo, se assim as alfazemas douradas cristãs purpurinarem!
envoltas por uma capa sórdida, emporcalhada
emoções vazam, transbordam, sambam e degolam
congestionam o corrimento de ilusões caricaturadas
fecha-te
porta do rancor
fechai essa entrada abraçada por fios constituintes
cada emaranhado jocoso inala putrefação, sacas rasgadas inundada por ossos pestilentos,
de faces à crânios
de membros à garras
feições grotescas que assobiam fúnebre louvor requerendo para o vaso a planta regadora
regador
regar sua dor
regadora que sou. nadarei. nadar na dor. sucumbirei meu senhor
incito condolência, surpresa benevolência.
despejo sua essência aromática fedorenta para que as canonizadas folhas roxas
cheias de esgares
amorfinem o solar deus primata
vulgo ocaso magnata!
arrancada, extraída, expelida pela terra viciada
replantada pelos iconoclastas irmãos incestuosos.
sujeita à mãos delicadas, antes tão sacras. putas. sábias
contaminada violada com água fétida envenenada virulenta, mas qual?! água doce calcificada imoral
estrutura que fortifica a volúpia despida e violentada
desaba à luz fulgurante do ente solar
megalomaníaco, amante, existe em concumbinato obsceno.
ninfomaníaco autofágico neologista suplementar
profundamente venerado pelos palitos da caixa terráquea fosfórica
infiltrado os raios cancerígenos impúdicos
calejando os pés escaldantes que caminham a madrugada
malogram uma estada, os estoicos pecam ostentando a força da alvorada, enterrados vivos cantam a safra dessincronizada
epicuristas dormem latentes e serelepes almejando no sonho, confrangido pelos ensandecidos insetos hominídeos, acarear
a minha, doravante, minha terra do nunca
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Primata Lírico
Vida cigana.
Nada a levar.
Apenas a felicidade de seguir só.
Fugindo.
Correndo.
Lentamente.
Eu vou.
Para o mundo me levar.
Mas eu tenho uma trilha preparada só para mim,
o caminho que vi ao sonhar noites,
sem dormir.
Insone...
O vulto. O silêncio.
Meu corpo dentro do espelho...
Através da grade sucateada, constituída pelos meus pesadelos conscientes, enxergo o céu...
E as nuvens passam depressa, irreverentes.
Pérfidas borboletas de algodão, a ignorar, minha moribunda canção.
Ao encontro do sol,
continuo a andar.
Vida cigana.
E me pego às vezes perguntando.
Se é sonho,
musicar o silêncio
da mente.
Louca jornada nestas ruas estranhas.
Sombras infestadas de sol.
Em nuvens humanas fui silenciar minha voz.
Vida.
Cigana.
De volta e outra vez.
Fugindo.
Correndo.
Lentamente.
Vou.
Sou guia.
E morte.
Vou voltar para o meu limbo dentro da noite solar.
Eua lua e o primata lírico.

1 comentários:
a produção por aí anda à toda!
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