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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Textos apresentados no Nós Pós parte 20 - Sachiko Shinozaki

Insosso

Cansada
Morgada
Sem brilho
Sem cor
Não há gosto
Nem desgosto
Só cansaço
Nem sono
Nem fome
Vida?
Não sei
Só cansaço...
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Esperando...

Seus olhos já não são tão brilhantes
O tempo passou
O eterno instante de esperar
Tornaram-se obscuros pontos do nunca
A ponte caiu
Não há mais o além do horizonte
Prédios enormes o esconderam
Não há ansiedade,
Agora tanto faz
Aquele que vem, vem?
O incerto futuro perdeu-se no tempo
A eternidade “efêmera” deixou marcas
Olhos nevoados pelas cataratas...
Essência

Perde-se na vida
Muito tempo tentando entender
O que não é para ser entendido,
Explicar o que não pode ser explicado.
Qual a importância de saber o tamanho do sol e da lua?
A que distância estão?
Basta que eu sinta o calor do sol,
O brilho da lua.
Não quero saber de onde vim e pra onde vou.
Eu vim e vou até onde puder.
Sou corpo, alma e mente.
Quero apenas o bastante,
Para alimentar o que sou.
O silêncio dos falantes,
A calma das crianças,
O murmúrio dos livros,
A agitação dos poemas,
Vitaminas e proteínas dos que se foram.
Qualquer música eterna dos amantes da vida.
A certeza de ter amigos,
Cumplicidade das palavras,
Solidão imensa do Universo.
Eu estou e sou.
Amo.
Canto.
Rio.
Vivo...E tenho você.
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Deleite

Estar contigo é um prazer
Ficar assim, mornamente nos teus braços;
Aconchegada, largada, dormente e demente.
Esquecida de tudo, num ato de perder,
Toda a razão dos percalços
Da vida, assim, docemente.

Lá fora a chuva ou será o sol, ou estrelas e lua?
Não sei, também, que importa?
Só eu e você, nesse abandono.
Nada acontece na rua
O momento não suporta
Nada mais que nosso contorno

Um olhar, um sorriso, palavras, carinhos;
Mundo perfeito, nosso mundo.
Brisa suave, quieta, só espiando,
Murmúrios baixinhos
Pra não atrapalhar, como música de fundo,
Da paisagem, de mim em você aninhando.
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Caos

Presença incômoda
Ausência sentida
Ásperos carinhos
Afetuosas grosserias
Atenção imperceptível
Terna indiferença
Assim és tu
És a própria dialética
Assim te amo
Assim te aceito?
Tem gosto de sangue na boca
A morte do que foi tão pouco...
Tão intenso que nos enganou
Tão amargo que nos feriu
Feridas tantas vezes abertas
Nem cicatriza mais
A cura possível é a despedida
Ferida maior para cobrir todas as outras
Certeza de que a cicatrização
Será de todas as outras
Até do meu amor por você...
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Mira-se

O passado desfila
diante da imagem do presente no espelho,
reflete o futuro de dor e morte.
Odeio espelhos...
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Turbilhão

Efêmera vida
Escorre pelas mãos,
Pelos poros,
Pelas narinas.
Amores vãs,
Platônicas querelas,
Eterna procura.
Certezas e dúvidas,
Dúvidas e incertezas.
Carícias rasgadas,
Corações ardentes.
Mente, alma e coração,
Uníssonos, desafinados;
Afinados, destoantes.
Pares sem ordem,
Ordenados ímpares.
Efervescente.
Quieta.
Silencia o grito,
Grito calado.
Maremoto incessante,
Cessa a tempestade.
Assim é vida
Pragmática,
Irreverente,
Inconstante,
Adversa,
Divertida,
Dicotômica,
Infinita.
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Advérbios

Sou errante
Andante
Caminhante
Que tem na mente
Uma só semente
Pulsante
Vibrante
Continuamente
De viver livremente.
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Sarapatel com sushi

Deve ser coisa da idade
Mais de 40 anos bebendo água brasileira
Começo a misturar as coisas.

Cachaça com saquê
Samurai com Lampião
Recife com Nakasaki

Kabuki com Mamulengo
Maracatu, frevo, vassourinhas, ciranda e roda de coco,
Com os tambores e cantos dos festivais de cerejeira e dos “Bom-Odoris”

As ruas e pontes do Recife
Com as lembranças das ruas da minha infância

Monte Fuji, olhos puxados, quimono
Capoeira, caranguejos, vitalinos.

Olindando nos carnavais
Recifrevando nos passos do Galo

Carrosséis e cirandas
Girando na roda dos tempos
Fusos horários
Acordo quando anoitece em Tókio
Tókio acorda com a lua sob o Capibaribe

No Japão eu nasci
Em Pernambuco vou me ficando.

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