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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Conto - Cotidinada (Alexandre Melo)

Cotidinada

Um passarinho acorda a aurora, faz um vôo leve, mas firme e pousa no verde a procura de cheiros. Algo se mexe entre a folhagem e ele tange um salto-vôo astuto e de vertigem.

Uma folha seca e enrugada cai no canal opaco e dá vida a círculos perfeitos.
Uma felina surreal mia doce, mas energicamente. A esta altura ela roça os móveis e pernas.
Uma mosca pousa no delicioso bolo que Ofélia fez, mas não vai degustar. Ofélia tem olhos sem brilho. Ela só pensa em sua casa. E odeia avental.
Numa janela anônima de um prédio qualquer pousa um pombo pardo. Igual a tantos outros, mas só aparentemente (pombos são como tribos).
Uma lagartixa ama o muro que a camufla. Neste mesmo muro insiste em fruir lenta, mas vigorosamente, uma flor. Ela parece sorrir (Por ela? Em mim?)
Numa várzea próxima barrigas inchadas e pernas esqueléticas subjugam uma impraticável bola. Todas trejeitam ares de estrelas do showbisness. Sob seus pés formigas-soldados enfrentam seu mais sangrento massacre. A colheita ia farta.
A felina sobe na mesa e se deita sobre os papeis. Ela me exige. Preciso deitar a Bic.


Alexandre Melo

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